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Um Óscar para Orson Welles?

Orson Welles em "Citizen Kane": as suas memórias estão também no filme "Mank"

Há uma hora

João Lopes

Liderando as nomeações para os Óscares, “Mank”, o filme de David Fincher, com Gary Oldman no papel central, leva-nos a reencontrar as memórias de Orson Welles.

Há qualquer coisa de paradoxal, paradoxalmente fascinante, no facto de um filme como “Mank”, de David Fincher, surgir a liderar as nomeações para os Óscares referentes à produção de 2020: está citado em dez categorias, incluindo melhor filme, melhor realização e melhor actor (Gary Oldman).

Porquê paradoxal? Primeiro, porque esta é uma extraordinária evocação da “idade de ouro” de Hollywood, através da personagem de Herman J. Mankiewicz (“Mank”, para os amigos), figura nuclear na escrita do argumento de Citizen Kane/O Mundo a seus Pés (1941), o clássico de e com Orson Welles, muitas vezes citado como o filme fundador de uma modernidade que, cerca de duas décadas mais tarde, iria gerar as “novas vagas”.

Depois, porque a sua gestação, e também a sua difusão, estão ligadas a uma plataforma de “streaming” [Netflix], quer dizer, a um universo tecnológico e cultural frequentemente encarado (e discutido) como o princípio do fim do clássico sistema de estúdios em que, justamente, “Citizen Kane” foi produzido.

O paradoxo amplia-se através de uma desconcertante ironia. Acontece que Welles ganhou um Óscar, partilhado, precisamente, com Herman J. Mankiewicz. Ou seja: o Óscar de melhor argumento original por “Citizen Kane”.

Apetece acrescentar que um Óscar pela história que se conta em “Mank” [trailer] poderia ser, simbolicamente, um prémio partilhado com o próprio Welles. O certo é que, neste caso, nem por paradoxo, nem por ironia, isso não irá acontecer. Na verdade, o argumento de “Mank”, escrito na década de 1990 por Jack Fincher (1930-2003), pai do realizador, não está nas nomeações… É caso para dizer: ninguém é perfeito. Lembrando que, neste pormenor, a Academia de Hollywood perdeu uma bela oportunidade de celebrar o cruzamento de gerações que define muitas marcas da sua excelência artística.

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