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Opinião

Pai do VAR, eu? O quê, neste quadro familiar?!…

06-11-2020

Rui Santos

Rui Santos defendeu a introdução da figura do VAR no futebol, mas revela-se insatisfeito com alguns desempenhos que considera ‘abusivos’. O comentador da SIC diz que a ferramenta é boa, os (video) árbitros é que não e o CA precisa de ser menos protector e mais sancionador

Quando defendi a introdução das novas tecnologias no futebol através da afirmação da figura do videoárbitro, tinha a certeza de que estava a contribuir para melhorar os níveis de proteção da verdade desportiva.

A respectiva petição foi entregue há quase 11 anos na Assembleia da República, mas a ideia começou a germinar na minha cabeça depois do Mundial 2002 e comecei a dá-la a conhecer ao público através do Tempo Extra, na SIC Notícias e, quando em 2009, na final da Taça da Liga entre Benfica e Sporting, vejo Lucílio Batista e José Cardinal a produzirem uma decisão absolutamente contrária às imagens emitidas pela transmissão televisiva, ferindo brutalmente a verdade desportiva, disse para comigo: ‘isto não pode continuar!’

Esta semana, no FC Porto-Marselha, num jogo dirigido pelo espanhol Mateu Lahoz, há um momento similar àquele que Lucílio Batista protagonizou em 2009: quando a bola vai à cara de Uribe e o árbitro assinala grande penalidade contra o FC Porto. No Dragão valeu a existência de VAR e foi possível corrigir uma decisão inicialmente errada do juiz de campo. Em 2009, a reversão de uma decisão inequivocamente errada e testemunhada por milhões não foi possível concretizar-se — como aconteceu durante décadas na história do futebol, subvertendo-a em muitos momentos.

Sabia que a nossa proposta era uma inevitabilidade no contexto internacional e tenho poucas dúvidas de que contribuímos decisivamente para que Portugal, através da louvável iniciativa da FPF, se tornasse num dos países pioneiros da implementação (prática) do VAR nos campos de futebol.

Perguntam-me amiúde se foi ‘esta figura de VAR’, atualmente em ação nos relvados portugueses, com que sempre sonhei ou idealizei.

A resposta é simples: não, não foi.

Primeiro, porque o protocolo é muito limitativo e não reflete uma ação solidária e concertada dos elementos que compõem a equipa de arbitragem na produção da decisão final, em caso de dúvida.

Segundo, porque a introdução da figura do VAR deveria pressupor forte investimento na formação da videoarbitragem e também menos tolerância por quem avalia os desempenhos dos árbitros.

Dou-vos um exemplo: na dúvida da existência de um pontapé de canto, não seria razoável o VAR poder ajudar? Qualquer coisa como: “canto, sim” ou “canto, não”.

Quer dizer: faltou colocar em prática a máxima ‘mais escutínio, mais rigor’, também ao nível de um processo sancionatório para os próprios árbitros.

E aqui reside uma parte substancial porque não se evolui mais rapidamente: é a própria corporação dos árbitros que tem de ser mais exigente consigo própria, impondo-lhe que realize a sua própria triagem e não tendo contemplações perante erros grosseiros, sobretudo se eles forem patrocinados pelos próprios videoárbitros.

Este processo precisa de ser claro aos olhos do público para que quem comete o(s) erro(s) não assimile a ideia de que pouco ou nada acontece, perante erros que nalguns casos continuam a ser difíceis de aceitar, como aquele que ocorreu no recente Paços de Ferreira-FC Porto, verdadeiramente escandaloso.

Uma pausa de um a três jogos até pode ser considerado um bónus — férias… “para voltarem mais fortes”.

O futebol com VAR é melhor do que sem VAR (veja-se apenas o caso que citei do recente FC Porto-Marselha, mas podia dar dezenas ou mesmo centenas de exemplos, numa pesquisa mais aprofundada e não apenas em Portugal), mas há coisas que, cá no burgo, não estão dependentes da videoarbitragem: a constância com que os clubes, com e sem razão (veja-se o caso do recente Boavista-Benfica), afastam as atenções dos seus erros, chamando a atenção para erros de arbitragem que a maior parte das vezes não existem.

O que aconteceu em Paços de Ferreira, com André Narciso e Nuno Almeida, foi um abuso com o qual não se pode nem pactuar nem consentir, com um encolher de ombros. E não me venham dizer que há consequências desse mau desempenho, porque o que existe não é claro, não é satisfatório, não é eficaz. Mais : é alimentar o regime nas suas múltiplas perversões.

O sistema da videoarbitragem é útil e protege mais a verdade desportiva, mas há duas coisas que têm de ocorrer: sancionar os árbitros que cometem erros grosseiros de uma forma menos aleatória e sensitiva e criar um quadro sancionatório muito mais duro, a doer, para os clubes que utilizam os seus gabinetes de comunicação e exércitos de coacção para mais facilmente gerarem supremacias.

Este já era o grande desafio antes da pandemia. Agora muito mais, porque quem está em xeque não é o presidente A ou o presidente B; é o futebol como indústria, que deveria rever as suas lógicas de intervenção.

Neste ‘quadro familiar’… vão chamar ‘pai’ a outro!

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